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Ansiedade

Crise de ansiedade: o que fazer na hora (e o que costuma piorar)

Um passo a passo para atravessar o pico de uma crise, os cinco erros mais comuns e como saber quando é hora de procurar ajuda.

Vitória Régia · Psicóloga, CRP 06/214867 · 6 min de leitura

Começa de repente. O coração dispara, falta ar, as mãos formigam, vem um calor subindo pelo peito e junto com tudo isso aparece um pensamento que parece verdade absoluta: alguma coisa muito grave está acontecendo comigo agora.

Se você já passou por isso, sabe que ouvir "calma, é só ansiedade" não ajuda em nada. Este texto é o contrário disso. É o que fazer nos primeiros minutos, o que costuma piorar, e como diferenciar uma crise de ansiedade de outras coisas que assustam parecido.

O que é uma crise de ansiedade, na prática

Uma crise de ansiedade é o seu sistema de alarme disparando com força total sem que exista um perigo real na sua frente. É o mesmo mecanismo que faria você correr de um carro desgovernado — adrenalina, coração acelerado, respiração curta, músculos tensos, pupilas dilatadas. Só que dispara na fila do banco, numa reunião ou às três da manhã na sua cama.

Isso explica por que os sintomas são tão físicos. Não é "coisa da sua cabeça": é o corpo inteiro respondendo a um alarme. E explica também a parte mais cruel do ciclo — como os sintomas são físicos e assustadores, você interpreta que está tendo um problema grave, o medo aumenta, e o medo alimenta mais sintomas. A crise se retroalimenta.

A notícia boa, e ela é importante: a crise de ansiedade tem um pico e ela desce sozinha. O corpo não consegue sustentar aquele nível de adrenalina indefinidamente. A maioria das crises atinge o auge em poucos minutos e vai cedendo depois disso, mesmo que você não faça absolutamente nada.

O que fazer nos primeiros minutos

O objetivo aqui não é fazer a crise parar na força — é atravessar o pico sem alimentá-lo.

  1. Nomeie o que está acontecendo. Dizer para si mesma, em voz alta se der, "isto é uma crise de ansiedade, é desconfortável e vai passar" muda a leitura do que o corpo está sentindo. Você deixa de interpretar os sintomas como ameaça e passa a interpretá-los como alarme falso — e é essa interpretação que mantém o ciclo girando.
  2. Alongue a expiração. Não tente respirar fundo: na crise, isso costuma dar mais tontura. Faça o contrário — inspire pelo nariz contando até 4 e solte o ar devagar pela boca contando até 6 ou 8, como se estivesse assoprando uma vela sem apagá-la. A expiração longa é o que aciona o freio do corpo. Repita por dois ou três minutos.
  3. Traga a atenção para fora da cabeça. Olhe ao redor e localize cinco coisas que você vê, quatro que consegue tocar, três que ouve, duas que cheira e uma que sente o gosto. Parece bobo, e funciona: a crise vive de atenção voltada para dentro, monitorando cada batida do coração. Esse exercício rouba essa atenção.
  4. Não saia correndo do lugar, se der para ficar. Fugir alivia na hora e cobra caro depois — seu cérebro registra que você só sobreviveu porque escapou, e da próxima vez aquele lugar vai parecer ainda mais perigoso. Se conseguir permanecer até a crise começar a ceder, você ensina o oposto.
  5. Depois que passar, anote. Onde você estava, o que aconteceu antes, quanto tempo durou, o que ajudou. Em duas ou três semanas esse registro revela um padrão que é praticamente invisível quando você está no meio da crise — e é justamente esse padrão que a terapia usa como ponto de partida.

O que costuma piorar

  • Pesquisar os sintomas na internet durante a crise. Você vai encontrar as possibilidades mais assustadoras nos primeiros resultados, e isso joga combustível exatamente no pensamento que está sustentando o alarme.
  • Respirar fundo e rápido. Hiperventilar aumenta a tontura, o formigamento e a sensação de irrealidade. O caminho é o inverso: soltar o ar devagar.
  • Brigar com o pensamento. "Para de pensar nisso" tem o efeito contrário. Quanto mais você tenta empurrar um pensamento para longe, mais espaço ele ocupa.
  • Beber para relaxar. O álcool derruba a ansiedade por uma hora e devolve com juros no dia seguinte, quando o efeito passa. É um dos ciclos mais comuns e mais difíceis de quebrar depois.
  • Evitar tudo o que lembra a crise. Deixar de dirigir, de ir ao mercado, de pegar elevador. Cada evitação alivia hoje e reduz um pouco mais o tamanho da sua vida amanhã.

Crise de ansiedade, ataque de pânico ou algo no coração?

Essa é a dúvida que leva muita gente ao pronto-socorro — e vale dizer com todas as letras: se você nunca passou por isso, ou se algo parece diferente do habitual, procure atendimento médico. Descartar causas físicas não é exagero, é o passo certo. O quadro abaixo serve para depois, quando a avaliação médica já foi feita.

 Crise de ansiedadeAtaque de pânico
Como começaVai subindo aos poucos, ligada a uma preocupação identificávelDo nada, no auge em poucos minutos, sem gatilho aparente
IntensidadeDesconforto forte, mas você segue funcionandoSensação de que vai morrer ou perder o controle
DuraçãoPode durar horas em intensidade médiaPico em 10 minutos, costuma ceder em até 30
DepoisCansaço e alívioMedo de que aconteça de novo — e esse medo vira o problema principal

Na prática clínica os dois se misturam bastante, e o rótulo importa menos do que o ciclo que se formou. O ataque de pânico tem uma característica específica: o que passa a organizar a vida da pessoa não é mais a crise em si, é o medo de ter outra crise. É esse medo que faz alguém parar de dirigir, de viajar ou de ficar sozinha em casa.

Se as crises estão voltando, vale conversar

Crises que se repetem têm padrão — e padrão a gente consegue mapear e trabalhar. Me manda uma mensagem no WhatsApp contando o que está acontecendo. Sem compromisso e sem formulário; eu respondo pessoalmente.

Conversar no WhatsApp

Quando é hora de procurar ajuda profissional

Ansiedade é uma emoção normal e útil — ela é o que faz você estudar para a prova e olhar para os dois lados antes de atravessar. Ela deixa de ser saudável quando passa a decidir as coisas por você. Alguns sinais de que chegou a hora:

  • As crises estão ficando mais frequentes ou mais intensas
  • Você começou a evitar lugares, situações ou pessoas para não correr o risco de ter outra
  • O sono virou uma batalha: você não consegue dormir ou acorda no meio da noite já em alerta
  • Está afetando o trabalho, os estudos ou as suas relações
  • Você está usando álcool, comida ou remédio por conta própria para dar conta
  • Simplesmente cansou de viver assim — e esse motivo, sozinho, já basta

Na Terapia Cognitivo-Comportamental, o trabalho com crises costuma seguir um caminho bem concreto: entender o ciclo específico que se formou no seu caso, questionar as interpretações catastróficas que alimentam o alarme, e retomar aos poucos — no seu ritmo, nunca de supetão — as situações que foram sendo evitadas. Não é conversa solta: você sai de cada sessão com algo para observar ou testar na semana.

Uma observação necessária: este texto é informativo e não substitui avaliação individual. Se você está em sofrimento intenso agora, ou se passou pela cabeça a ideia de não querer mais estar aqui, ligue 188 — o CVV atende de graça, 24 horas por dia — ou procure o pronto-socorro mais próximo.

Vitória Régia Gonçalves da Silva

Psicóloga · CRP 06/214867

Psicóloga clínica com pós-graduação em Terapia Cognitivo-Comportamental pela PUC e formação em Análise do Comportamento Aplicada pela Academia do Autismo. Atende adultos por videochamada em todo o Brasil. Conheça o trabalho dela.

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